É fantástico ser a Apple. A máquina do legado de Steve Jobs está tão bem oleada que todos os anos assistimos ao lançamento de equipamentos muito interessantes e tecnicamente bem conseguidos que contam acima de tudo com uma lealdade de marca incomparável à de qualquer marca Android. É por isso – e só por isso – que o iPhone Xr será um sucesso, mas se qualquer marca Android tivesse o atrevimento de lançar um smartphone idêntico ficaria com as caixas no armazém, porque nenhum utilizador Android financiaria tal atrevimento.

O que há de errado com o iPhone Xr? Nada, excepto o facto de estarmos em 2018 e ecrãs que não chegam a ser sequer FHD encontram-se exclusivamente abaixo dos €300! O ecrã do iPhone Xr pode ser efectivamente o melhor LCD alguma vez a bordo de um smartphone, mas de que serve toda a gama dinâmica do mundo se não temos os pixéis para a exibir?

Erguer-se-ão agora as vozes dos que dizem que o olho humano não consegue distinguir pixéis acima de resolução X ou Y. Tecnicamente, não tem nada que que ver com distinção de pixéis individuais, mas com renderização de conteúdos, captação de detalhes e gama dinâmica. Distinguir no quotidiano os pixéis ou não é irrelevante. O que não é irrelevante é olhar para uma fotografia e ver cabelos a menos.

Mas deixem-me tirar da frente primeiro o que é excepcional no iPhone Xr: o A12 Bionic. Nenhum processador Android pode apregoar tamanha capacidade e performance, talvez porque nenhum fabricante Android se possa dar ao luxo de casar tão bem um processador e uma interface. Ou pode? O primeiro processador de 7nm a ser anunciado foi o Kirin 980 da Huawei, capaz de 5 triliões de operações por Watt, mas ao contrário do A12, em menos de meio ano o Kirin 980 estará a ser vendido em smartphones de €600.

Ainda assim, restam neste momento poucas dúvidas de que em termos de performance pura, o iPhone Xr estará à altura de qualquer Android de €800. Mas ainda assim, se o iPhone Xr fosse um Android, ninguém aceitaria pagar €800 por ele.

O ecrã é o menor dos seus problemas. Ao abrirmos a caixa continuamos a deparar-nos com um carregador que não é de carregamento rápido, e nem encontramos o mínimo indispensável, que seria um conversor Lightning para jack aúdio. Perguntemos à Sony quantas críticas recebeu por não ter pensado de início em colocar um conversor no seu Xperia XZ2 e já que estamos na Sony, além da Apple e da marca Nipónica, quem é que ainda coloca painéis LCD em smartphones de €800 em 2018?

A Sony não está a passar os melhores anos, por isso olhemos para a Samsung: o Galaxy S9 é inquestionavelmente o melhor smartphone Android neste momento e as suas vendas estão a ser menos do que estelares. Inúmeras críticas foram apontadas ao topo de gama Coreano, particularmente o design praticamente idêntico ao do S8 e a manutenção de apenas uma câmara, quando praticamente toda a concorrência já se rendeu às duas câmaras. Olhando-se para o iPhone Xr, o seu design é fundamentalmente idêntico ao do iPhone 8 Plus, com o ecrã do iPhone X, e o iPhone Xs é ainda menos renovador nesse aspecto. Este tipo de pura preguiça é premiada no mundo Android com vendas miseráveis.

Ora a gama alta tem sido igualmente um palco de grande inovação no mundo Android, com ecrãs bezel-less, leitores biométricos sob o ecrã, ecrãs OLED, etc. Pensemos que o primeiro smartphone com LTE de 1Gbps foi o Samsung Galaxy S8, o primeiro bezel-less foi o Xiaomi Mi Mix, o primeiro smartphone com ecrã HDR foi o Sony Xperia XZ Premium, o primeiro com HDR da Netflix foi o LG G6, o primeiro ecrã OLED chegou no LG Flex 2, o primeiro Smartphone com uma NPU dedicada foi o Huawei Mate 10, e a lista poderia continuar. Face a isto, o iPhone Xr não possui uma única novidade, limitando-se a correr atrás da concorrência Android em termos de inovação. Poderíamos neste momento invocar uma dezena de smartphones Chineses mais baratos que fazem xixi em círculos à volta do iPhone em termos de inovação e arrojo estilístico.

Seria algo impensável no ecossistema Android fazê-lo e muito menos sem revelar pelo menos a quantidade de RAM que teremos a bordo, já que algo que um utilizador Android detesta é um smartphone acima dos €400 que faça refresh a todas e quaisquer janelas abertas.

Inquestionavelmente, veremos ao longo de 2019 inúmeras imitações estilísticas do iPhone, mas nenhuma marca Android se atreverá a lançar um equipamentos de €800 com as limitações (potencialmente severas) do iPhone Xr. É que mudar entre dispositivos Android não é tão difícil quanto mudar de ecossistema, e nenhuma marca Android pode abusar dos preços por ser a única opção no mercado. Porque não é, e a concorrência irá mostrar-lhe sempre que há algures algo melhor e mais barato. E para mim, como utilizador, nada é melhor do que perceber quantas opções tenho para gastar o meu dinheiro arduamente ganho, escolhendo mais refinadamente exactamente o que preciso para o meu smartphone, em vez do “isto ou nada” da Apple.

Esse é um benefício que os utilizadores da Apple não possuem e, como tal, a Apple pode lançar um dispositivo tão ostensivamente demasiado caro para o que oferece quanto o iPhone Xr. Sem a enorme máquina de marketing e a dedicação dos seus fãs, a Apple veria o iPhone Xr vender tanto quanto o malfadado Essential Phone, e isso seria a €400 em meio ano.

 

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