O regresso do nome Nokia aos smartphones foi a sensação do Mobile World Congress em Fevereiro, com ampla cobertura dos media, mas agora que os dispositivos chegam ao mercado não faltam as vozes que esperavam milagres e têm a realidade à frente. De modo muito irrealista, havia quem esperasse equipamentos Nokia carregados de hardware transcendente, ou ao preço da uva mijona.

A verdade é que é fácil criticar um smartphone de €229 quando se tem um de €400 ou €600 no bolso. Mas e quem não tem esses valores ou os padrinhos para oferecer uma prenda? Bem, já disse anteriormente que o meu Huawei Mate 9 é a minha vida, mas vamos estabelecer a realidade de uma vez por todas: pode um power user fazer com o Nokia 5, tudo o que faz com um smartphone de gama alta?

  • Introdução

Da minha primeira análise ao Nokia 5, podem ter ficado com a sensação que fiquei impressionado. É correcto: o nível de acabamentos e o design geral são impressionantes para um dispositivo desta gama de preço e envergonham pura e simplesmente equipamentos concorrentes.wp-image-399850506.jpg

A ergonomia é, ademais, soberba.

Em contraponto, o Nokia 5 apresenta um modesto Snapdragon 430, octa-core que é obrigatório na gama baixa com desejo de ter alguma dignidade, com 2GB de RAM e 16GB de armazenamento interno expansível. São características básicas que não desiludem, mas não surpreendem, acima de tudo se comparadas com as de dispositivos bem mais caros de marcas de maior renome no universo Android.

Pelo menos o dispositivo é bastante completo, não omitindo o leitor de impressão digitais, nem a NFC, uma absoluta raridade abaixo dos €300.wp-image-1103703980.jpg

Portanto, do processador octa-core, ao leitor de impressões digitais, passando pela NFC, corpo em metal e câmara de boa resolução, o Nokia 5 tem tudo o que podemos encontrar em qualquer smartphone bem mais caro. Mas dará para fazer o mesmo?

  • O Nokia 5 faz tudo o que precisas: armazenamento e software

Como qualquer pessoa, tenho um núcleo duro de jogos e apps fundamentais para a minha sanidade mental e vida profissional. Não sou o tipo de viciado em apps que instala e desinstala apps todos os dias, mas a minha lista é enorme e mal habituado pela excelente capacidade de Huawei Mate 9 e Huawei P10 Plus, tornei-me simplesmente desleixado.

O primeiro impacto com o Nokia 5 é que temos que fazer escolhas. A música fica estritamente relegada para o microSD; não uso streaming. Não é por ser conservador, mas porque profissionalmente não tenho Internet disponível, e porque o que quero ouvir não anda por aí na banalidade dos serviços de streaming.

Quanto às apps, os 16GB são meramente adequados para as apps principais de produtividade que uso todos os dias, mas é óbvio que destes 16GB só temos ao nosso dispor cerca de 7GB que se esgotam depressa.

Nokia5screenA missão é mais difícil se pensarmos que o stock Android que tantos adoram é um deserto de extras e o Nokia 5 não ajuda ao não dispor de luz de notificações. Vamos precisar pelo menos de um explorador de ficheiros e uma app para ter algum tipo de informação no ecrã sem ter que desbloquear o ecrã constante.

A interpretação Nokia do Android stock não é sem virtudes: o toque longo para abrir acções rápidas está perfeitamente implementado, e temos mesmo um centro de suporte para contactarmos os fóruns da marca ou a assistência. Bom toque!

A folga é curta para exageros, e temos de optar somente pelos jogos essenciais. Em pouco tempo acabou-se o espaço, devido à cache acumulada pelas apps e ficheiros adicionais.

Mas, em suma, com 16GB temos ainda alguma capacidade para uma vida normal, desde que não sejamos o tipo de pessoa que acumula apps no smartphone sem as utilizar.

  • O Nokia 5 faz tudo o que precisas: a performance

O que notamos quando temos um dispositivo de gama alta é que tudo responde depressa e, se não o fizer, mais vale pedir o dinheiro de volta. Este tipo de performance paga-se bem, já que além das memórias mais rápidas há que levar em consideração toda a arquitectura dos equipamentos, incluindo as vias de dados entre RAM, processador e armazenamento.

No caso do Nokia 5 posso dizer que conseguirão fazer tudo o que fazem num equipamento de €500 ou mais, mas menos depressa.

A lentidão do sistema nota-se particularmente nas transições entre apps ou no carregamento destas. Saltar do Chrome para o WhatsApp pode demorar bem um segundo, por exemplo até que o messenger esteja realmente aberto.

Mas o mais grave é que a RAM será de facto inadequada para power users. A vantagem de RAM extra é a capacidade para mantermos mais dados na memória sem perdas, e infelizmente os 2GB são hoje suficientes para correr o Android, mas com algumas tabs e menos de meia dúzia de apps abertas, começamos a perder dados: os jogos reiniciam, as páginas web recarregam, e tudo isto faz perder tempo e informação. Neste capítulo, o meu tipo de utilização torna-se rapidamente desconfortável com tão pouca memória, pois necessito de ter duas ou três janelas abertas com informação retida: imaginem o pesadelo de estar uns segundos a ler um PR, verificar uns dados e de repente desapareceu parte do que já tinha escrito para um artigo.

Entretanto, o ecrã responde bem e gosto realmente de todo o feel, incluindo a relativa celeridade com que o leitor biométrico desbloqueia o ecrã. Já experimentei bem mais lento, e em termos de cor e qualidade de imagem estou plenamente satisfeito, embora preferisse uma tonalidade mais fria no ecrã, algo que o Android stock não permite obter.

Bom, mas no gaming as coisas são diferentes. Tenho lido muito do que os meus colegas dizem sobre o Nokia 5 e parece-me que não estamos a falar do mesmo dispositivo.

Com o Snapdragon 430, o Nokia 5 não é o sonho de qualquer gamer, mas encaixou Dead Trigger 2 e N.O.V.A. como gente grande. Também não terão problemas no Real Racing 3, mas aqui, tal no caso do Asphalt 8, os fps podem ser demasiado baixos para os mais exigentes. Diversas foram as vozes que indicaram a incapacidade do Nokia para correr o muito pesado Asphalt 8. Bom: mas corre. Corre o jogo com fluidez suficiente para ganharmos, mesmo que as fps baixas retirem alguma da adrenalina que o jogo gera.

O problema não é esse, mas a falta de espaço para qualquer um dos jogos. Isto não é dizer que não se notem limitações na gráfica, porque se notam, por exemplo no scroll algo trepidante quando os sites são pesados ou temos bastantes ficheiros. O Nokia é um daqueles potros bons para o trote, mas que requerem paciência.

Portanto, utilizei o Nokia 5 ao longo de diversos dias e ninguém na TekGenius notou quebras ou ausências. O Nokia 5 é extremamente polivalente e faz tudo o que fará um equipamento de €600. Claro que o fará de modo bem lentificado, mas qualquer adulto profissional conseguirá tirar grande proveito deste dispositivo.

  • O Nokia 5 faz tudo o que precisas e com estilo

Qual é um dos principais pontos para a compra de um smartphone topo de gama? Os acabamentos, obviamente.

A estética é importante para mim, mas não tanto quanto a performance bruta. Por isso, se tiver de escolher entre um bom hardware ou bons acabamentos, escolho a primeira hipótese, porquanto não se comprometa a durabilidade do dispositivo.wp-image-1103703980.jpg

No segmento dos €200 é raro encontrarmos um dispositivo bem construído, bem rematado e sólido. Mas esse é o caso do Nokia 5: se a performance é consistente com o preço, a construção é equiparável à de equipamentos bem mais caros.

Como já tive a oportunidade de realçar, a ergonomia é boa e o dispositivo encaixa bem na mão. Será dos mais bonitos nesta gama de preço.

Em suma, o Nokia 5 é dos poucos dispositivos neste preço que não deixam ficar mal quem procura estética de destaque. Pessoalmente, viveria contente com o Nokia 5 de um ponto de vista estritamente estético.

  • O Nokia 5 faz tudo… o que a bateria deixar.

O Nokia 5 chega com uma bateria de 3000mAh, e este é um valor muito interessante, generoso até, tendo em conta quão simpático é o exterior e as dimensões gerais do Nokia.

Na prática, no entanto, a constante utilização de wi-fi e rede 4G teve o seu peso na sua disponibilidade. Não vou ser parcial: há dias em que o meu Mate 9 não aguenta uma manhã sem reforço, e o Nokia 5 também não. Pronto. Mas, tendo em conta que não é um dispositivo que puxe muito pela bateria, a bateria do Nokia parece-me não durar o que eu esperava.

A contribuir para este factor está sem dúvida a ausência de uma luz de notificações e a obrigatoriedade de ligar o ecrã por completo para ver se chegou alguma mensagem ou e-mail importante. Este constante recurso ao ecrã ligado vai solicitar sempre o processador, a gráfica e todos aqueles pequenos pixéis, com a bateria a ter que aguentar a carga. Falta igualmente um gestor que permita ajustar de modo mais refinado o modo como gerimos a energia da bateria.

Portanto, o Nokia 5 possui uma bateria mais do que adequada e das maiores na sua classe, mas a ausência de uma luz de notificação ou um ecrã ambiente significam que em modo de repouso o dispositivo simplesmente não dura o que deveria durar.

  • O Nokia 5 faz tudo o que precisas, incluindo tirar excelentes fotografias

Esta ainda não é a câmara Nokia que esperamos, pelo menos ao nível do software. Nesta gama de preço, algumas marcas conseguem fazer melhor onde o Nokia 5 está fortemente limitado pela app miserável que a Google inclui no Android para o simples desenrasque. Falo claro da BQ, que é um exemplo a seguir e infelizmente não há reais alternativas na Play Store para uma boa interface fotográfica, até porque acredito que quando pagamos este valor por qualquer telemóvel, uma app fotográfica capaz é o mínimo a pedir.

No entanto, a qualidade de imagem tem mérito e é mais inspiradora que a câmara do Nokia 3. Há aqui apreciavelmente mais detalhe e boa reprodução das cores em situações de elevado contraste. Todos os que não sejam fanáticos da fotografia viverão felizes com a imagem do Nokia 5 que dá simplesmente resultados quando precisamos deles, com boa exposição, cores equilibradas, e foco relativamente rápido. Tenho por mim que o resultado final será dos melhores nesta classe de preço, não obstante a falta de input que o utilizador tem nesse resultado.

Quem quiser realmente libertar o potencial desta câmara poderá dispender alguns poucos Euros para adquirir uma app mais completa. Até lá, o fotógrafo casual não se vai envergonhar e terá poucos problemas em tirar imagens capazes de impressionar.

  • Conclusão

Decidir usar exclusivamente o Nokia 5 ao longo de vários dias foi uma decisão que tomei com trepidação. Não pensava de todo que o Nokia 5 conseguisse substituir o colosso de trabalho que é o Mate 9. Mas fiquei surpreendido.

As carências do Nokia 5 em RAM e armazenamento disponível serão sem dúvida pontos negativos aos olhos de muitos. Mas, à medida que me habituava a ser selectivo com o que instalava (tentem, sabe bem), melhor convivia com a falta de espaço. A falta de RAM, no entanto, agudizou-se à medida que ia acumulando documentos e trabalho. Neste segmento de preço já se pede mais neste capítulo, principalmente se quisermos utilizar o smartphone a nível profissional e ainda mais se os nossos gostos de gaming exigirem espaço.

Todavia, olhando para o geral, o Nokia 5 é incrivelmente completo para o preço que tem, trazendo todas as funcionalidades que podemos esperar num dispositivo de €800 (fora a luz de notificações: essa não dá para esquecer), apenas não com tanta capacidade em termos de velocidade e memória. Portanto, a sua existência prova que muitos de nós estão simplesmente a pagar pelo seu smartphone muito acima do que necessitam, desembolsando valores luxuosos por funcionalidades que poderiam esperar ser exclusivas da gama alta. Não são.

A polivalência das características do Nokia 5 prova que não precisamos gastar os olhos da cara para ter um smartphone tão capaz de assegurar os momentos de lazer, quanto os compromissos profissionais, tudo com um design inconfundível e esteticamente irrepreensível.

REVIEW GERAL
Design e Construção
9.5
Experiência de utiilização
8.7
Software
8
Performance
7.7
Fotografia
7.5
Bateria
7.5
Relação qualidade-preço
9
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Fotografia, tecnologia, ciência: investigar escrever é uma paixão. Nas horas vagas, a caminho do trabalho ou de casa, cada minuto conta para descobrir e divulgar algo novo.

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