Variedade, inovação, opção de escolha: estas eram três palavras que poderíamos associar sem pensar duas vezes ao ecossistema Android. Pelo menos até 2018 chegar e praticamente todas as marcas se atirarem ao design do iPhone e sermos subitamente inundados por uma legião de smartphones praticamente decalcados uns dos outros. Porquê? Porque a maioria das marcas Android perderam toda e qualquer pretensão de ser diferentes e preferem ir pelo caminho mais seguro e mais fácil da repetição. E a culpa pode bem ser nossa.

 

Os smartphones estão a ficar todos iguais e a culpa é nossa

Como autor de tecnologia, admiro particularmente o ecossistema Android e toda a comodidade que nos oferece, a elevada compatibilidade entre dispositivos e o modo como os serviços diversos se integram perfeitamente. É talvez um ponto de vista polémico, mas considero que o utilizador médio do Android é menos propenso a lealdade cega a uma marca do que o utilizador médio do iOS.

Mas 2018 pode bem ter provado que estou errado. Após o lançamento do iPhone X no final de 2017, o seu entalhe tornou-se uma espécie de piada e pedra de arremesso que rapidamente se viraria contra os utilizadores Android após o fluxo imparável de smartphones com entalhe por tudo e por nada. De algum modo, praticamente todas as marcas aderiram a esta polémica moda e nem todas se deram sequer ao trabalho de justificar a presença do notch nos seus equipamentos.

Em alguns casos, marcas menos conhecidas colocaram o entalhe às três pancadas no ecrã, arruinando qualquer dignidade que os dispositivos pudessem ter. Mas as marcas não quiseram simplesmente imitar a Apple. Ao muito claramente apregoarem os seus smartphones como “o primeiro smartphone com notch abaixo do preço X”, estas marcas perceberam que há um utilizador Android muito específico que compra lixo barato porque gostaria de comprar um iPhone, mas não tem dinheiro para tal.

Os smartphones com notch vendem e não é por falta de opção, mas porque os utilizadores os foram comprar, e alguns terão mesmo pensado ser mais espertos que quem compra um iPhone X por $1000 quando eles compraram um clone qualquer por $200, como se um entalhe fizesse por si só o iPhone. Os módulos das câmaras não escaparam a este assassinato do design: dezenas de smartphones chegaram ao mercado com módulos duplos na mesma posição do iPhone, muitas vezes com câmaras de baixa resolução de utilidade nula.

Mas ainda assim, os utilizadores compraram estes dispositivos às dúzias e mostraram uma e outra vez que a imitação compensa. Em 2018, o ecossistema Android perdeu a maior parte da variedade estilística que sempre apaixonou os entusiastas.

As marcas deixaram de tentar ser originais

Houve tempos em que o ecossistema Android era povoado por experimentos e variedade. Olhemos para 2010, ano de nascimento do iPhone e olhemos para o Motorola Moto Droid X, Google Nexus One, Samsung Epic 4G ou HTC Evo. Todos tinham identidade estilística própria e eram fáceis de distinguir uns dos outros, e a mesma variedade manteve-se ao longo dos anos seguintes.

O que é que nos aconteceu desde então? Para onde foi esta variedade de designs e implementações? Em muitos casos é justo dizer-se que a maturidade do sistema Android tratou de homogeneizar as especificações e os traços gerais dos smartphones Android disponíveis no mercado.

Mas outros casos são taxativos: é mais fácil simplesmente imitar o iPhone e vender uns milhões de equipamentos, do que investir extra em design e inovação para se vender o mesmo ou menos do que as marcas que imitam. Para muitas marcas Chinesas emergentes, a imitação é a melhor forma de fazerem negócio, poupando em R&D e pegando em componentes off the shelf para criarem dispositivos baratos que se parecem com iPhone dos pobres. Ser um clone do iPhone tornou-se quase um motivo de orgulho.

Qualquer semelhança entre o Oppo R13, as suas imagens oficiais e o iPhone X é mera coincidência, certo?

Mas os utilizadores apoiaram a clonagem, compraram-na, e as grandes marcas foram contagiadas pelo negócio fácil. Não se trata simplesmente de copiar elementos de Cupertino: as imagens de fundo, as interfaces, as imagens oficiais, tudo parece feito para alguns equipamentos se confundirem com o iPhone X.

Existem excepções, mas “who cares”?

Nunca tivemos tantas marcas de smartphones no mercado, mas existem poucas excepções na colagem ao iPhone (quiçá lista por completar):

  • Samsung
  • Sony
  • BlackBerry
  • BQ
  • Honor
  • Motorola
  • Nokia
  • LG
  • HTC
  • Alcatel
  • OnePlus

A Samsung continua a ser a marca Android de maior dimensão e os Galaxy S9 e S9+ são os equipamentos Android melhor vendidos, mas a marca encontra-se sob marcação cerrada de concorrentes que foram por um caminho mais fácil. É algo trágico, que a Samsung continue a imitar-se somente a ela própria e não aceite vender-se a ser a marca que segue tendências.

E a BQ merece aqui um grande aplauso, pois pela sua dimensão é a marca que mais tem a perder por continuar a procurar um design e uma imagem própria, o que significa investimento que outras marcas maiores têm e não querem usar.

Será o design original uma coisa do passado?

Todavia, nenhum smartphone é tão marcante na falta de variedade do sistema Android quanto o BlackBerry KEYone. Quando foi anunciado em 2017, o KEYone foi o mais único smartphone Android do ano, incorporando um formato que fugia à norma, com um teclado único em todo o ecossistema. Para muitos, habituados a repetições ad nauseum do mesmo design, o KEYone era estranho e demasiado diferente para ser um sucesso. Para quem precisar das ferramentas que o BlackBerry mobiliza, no entanto, o KEYone (e o Key2) são excepcionais como poucos smartphones.

Mais recentemente, o OPPO Find X mostrou ao mundo como é possível criar-se um smartphone imediatamente reconhecível, com tecnologia de ponta, e que não precisa ser preguiçoso na procura para soluções para os desafios técnicos que se apresentam a qualquer fabricante. Mas permanecerá como a excepção à regra da OPPO? A OnePlus certamente parece ter aprendido depois das críticas feitas ao design do OnePlus 5 está agora no bom caminho, com um OnePlus 6 que tem identidade própria, apesar de elementos semelhantes.

Oppo Find X: ou como ainda ser especial em 2018.

Mas, ao mesmo tempo e infelizmente, a lista ficará mais curta em breve, com a Motorola a preparar-se para lançar equipamentos muitos semelhantes ao iPhone X em design. Num caso, o Motorola One Power, mas não podemos esquecer também o HTC U12 Life.

E isto não me admira: talvez com excepção da Nokia, nenhuma das marcas desta listagem parece ter lucrado de algum modo pela aposta em manterem uma identidade própria. Se já quase todas desistiram de inovar, a dezena de marcas devem estar a perguntar-se se este caminho vale a pena. É certo que o design não é tudo, e nesta lista encontramos outras questões a resolver, como suporte pós-venda, performance ou actualizações, mas um número bem superior de marcas manteve os mesmos problemas e limitou-se a colocar-lhes um notch para os disfarçar.

Os consumidores sem discernimento

À medida que mais e mais smartphones imitam à descarada o iPhone nas suas diversas encarnações, os utilizadores são forçados por um caminho cada vez mais estreito em que perdem o acesso à inovação, à diferença e ao dispositivo que realmente querem. Escolher o smartphone certo é quase um acto de acaso.

Presas da retórica do marketing, os utilizadores preferem câmaras duplas de utilidade questionável a câmaras únicas de melhor qualidade; olham para o efeito de bokeh em vez das especificações áudio e saúde dos ouvidos; preferem a moda a tecnologias úteis como emissores infravermelhos ou tecnologia NFC com utilidade quotidiana; deixam-se cair em clichés como “inteligência artificial” em vez especificações palpáveis; o áudio continua a ser o parente pobre dos smartphones; a biometria que nos ajudaria a controlar a nossa saúde permanece um nicho; as patentes mais interessantes nunca chegam ao mercado.

Assim, a inovação mantém-se presa aos smartphones extremamente caros, enquanto os restantes lutam pela fatia do bolo garantida por serem iguais a todos os outros e os utilizadores perdem real opção de escolha. Como utilizadores, continuamos a queixar-nos do preço dos melhores smartphones, e compramos aqueles que se parecem com eles, continuando a dizer às marcas que compensa continuarem a criar produtos de elite para uns, e imitações para todos os outros.

 

O smartphone diferente é mais pessoal

Quem quiser um iPhone, compre um iPhone. Comprar um Android parecido com o iPhone, como se fosse alguma espécie de orgulho dizer “olhem, é igual ao iPhone, mas muito mais barato”, é um erro: não estão a enganar ninguém; toda a gente percebe o que estão a tentar fazer e não é cool.

Acima de tudo, como consumidores é altura de deixarmos de entregar o nosso dinheiro arduamente ganho a marcas que não se esforçam e fazem da imitação o seu modelo de negócio. Caso contrário, amanhã todas a marcas serão iguais, substituíveis, e deixaremos de ter aquela relação pessoal que muitos de nós reconhecem em ter um dispositivo que é realmente diferente dos restantes, que se sente na mão, que se comporta de modo diferente, que nos dá algo de que sentiremos falta quando mudarmos para outro.

Muitos de nós reconhecem esta sensação. É aquele feeling que nos mantém agarrados a um smartphone já com algum tempo porque é especial, diferente, inconfundível. Porque quase que tem uma personalidade própria que aprendemos a conhecer. Quando isto se perder, a tecnologia torna-se amorfa, e não sobra espaço para a personalidade do utilizador: ele irá anular-se num equipamento igual a todos os outros e será igual a todos os outros. O Android deixará de ser um ecossistema democrático.

Aceitariam que todos os automóveis fossem iguais? Que todos os sapatos tivessem o mesmo formato?

Se a resposta é não, é altura de aplicarem a mesma regra aos smartphones. Paremos de comprar imitações baratas, paremos de premiar a cópia e a preguiça.

3 COMENTÁRIOS

  1. Gostei imenso do seu artigo. Identifico-me com tudo o que falou. Sou fã da Apple e já tive iPhone 4s e neste momento tenho iPhone 7 e até o Apple Watch 😉 Neste momento vejo cópias descaradas do iPhone em todo o lado. Começa no slot de SIM, exactamentecom mesmo aspecto, no mesmo sítio, com mesmo furo, passa pelo botão de impressão digital, que só não é no mesmo sítio mas com o mesmo aspecto, a moldura lateral é igual, os cortes das antenas estão nos mesmo sítios, as câmaras são posicionaras da mesma forma e com aspecto semelhante. Inicialmente falam todos super mal quando a Apple cria algo fora do comum (estou me a referir ao notch do iPhone X e à ausência do jack dos phones p.e.) mas depois fazem igual. Imitam. Primeiro falam mal, e depois imitar. Um pouco incoerente, não é? Isso deixa-me profundamente triste e até revoltada. Não compreendo. Penso que em relação a todos os aspectos que falei há muito por onde inovar, mudar e dar toque pessoal, mas parece que querem fazer imitação do iPhone à força, tal como escreveu “sentem um orgulho em ter um iPhone barato”. Hahahahha. Porquê? Não entendo. Triste… gostei imenso do seu artigo e ajudou-me a perceber várias coisas 🙂

    • Boa tarde Krystyna, a cópia é a melhor forma de lisonja, dizem, pelo que a Apple se deveria sentir elogiada por tanta cópia, mas a verdade é que a cópia de algo acaba por prejudicar é o consumidor que perde a opção de escolha! Grato pela leitura!

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